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Ato público na UFPel exige medidas contra racismo após ataque a motorista negro

Ato público na UFPel exige medidas contra racismo após ataque a motorista negro

Um caso de racismo ocorrido no transporte de apoio oferecido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) mobilizou a comunidade acadêmica e ativistas antirracistas da cidade. O episódio, que envolveu um motorista terceirizado da instituição, gerou manifestações de repúdio e uma convocação para atos públicos exigindo medidas concretas contra o racismo estrutural dentro da universidade.

O caso foi amplamente discutido em entrevista ao programa Contraponto por Gilson Porciúncula, docente da UFPel e membro da UFPreta, e Prince Meireles Duarte, conselheira do Segmento de Educação do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Pelotas. Eles destacaram que esse não é um episódio isolado, mas sim parte de uma série de negligências institucionais no combate ao racismo na UFPel.

O caso e a resposta da comunidade negra

O episódio ocorreu dentro do ônibus de transporte de apoio da universidade, quando um estudante gravou um vídeo do motorista, um homem negro, e o expôs em um grupo de WhatsApp de estudantes da UFPel. No vídeo, o estudante afirmou que o motorista estava escutando "música de preto" e sugeriu que o ambiente parecia uma "encruzilhada", acompanhando o material com mensagens e emojis de cunho racista. A divulgação dessas ofensas nas redes sociais levou a uma onda de indignação.

A reação imediata da comunidade negra foi de perplexidade e tristeza, mas também de organização. "É um ataque não só ao motorista, mas à comunidade negra como um todo. A universidade precisa tomar medidas concretas contra esse tipo de situação", afirmou Prince Meireles. Segundo Gilson Porciúncula, a UFPreta tem recebido diversas denúncias de casos semelhantes e tem cobrado posições mais rígidas da administração central.

O impacto psicológico e social do racismo

Além da repercussão institucional, o caso levanta questões sobre o impacto emocional e psicológico que episódios de racismo causam em suas vítimas. De acordo com especialistas, pessoas que sofrem discriminação racial frequentemente desenvolvem quadros de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.

"O racismo institucional não afeta apenas a trajetória acadêmica ou profissional das vítimas, mas também a sua saúde mental e bem-estar. É fundamental que a universidade ofereça suporte psicológico para essas pessoas", destacou Meireles.

A necessidade de acolhimento e de uma rede de apoio forte dentro da universidade também foi enfatizada. Movimentos estudantis e coletivos negros vêm desempenhando um papel essencial para garantir que vítimas de racismo tenham respaldo e consigam seguir suas trajetórias educacionais.

A mobilização e o ato público

Como resposta ao caso, a UFPreta convocou dois atos públicos para exigir um posicionamento mais firme da universidade e a implementação de políticas antirracistas mais efetivas. As manifestações ocorrem nesta quinta-feira (20) em dois momentos:

11h - Concentração em frente ao Restaurante Universitário do Câmpus Anglo

17h - Ato no Largo do Bola, em frente ao Instituto de Ciências Humanas (ICH)

Os organizadores enfatizam que a luta antirracista não deve ser apenas da comunidade negra, mas de toda a sociedade. "Todos têm responsabilidade nessa luta. Precisamos nos mobilizar coletivamente para garantir mudanças estruturais", pontuou Porciúncula.

Racismo na UFPel: um problema estrutural

A entrevista também trouxe reflexões sobre a forma como a UFPel lida com o racismo institucional. Segundo os entrevistados, o regimento da universidade data de 1969 e não contempla diretrizes claras para combater a discriminação racial dentro do ambiente acadêmico.

Embora exista a Resolução 29/2018, que trata de condutas antiéticas e discriminatórias, a falta de protocolos específicos impede uma responsabilização efetiva. "Muitos casos acabam arquivados, deixando as vítimas sem respaldo institucional", explicou Meireles. A ausência de um mapeamento sistemático sobre essas ocorrências também dificulta a adoção de soluções preventivas.

A necessidade de políticas antirracistas concretas

A discussão levantou outra questão essencial: o compromisso da universidade em desenvolver políticas institucionais voltadas para o combate ao racismo. Diversas universidades pelo país já adotaram medidas como a criação de núcleos de equidade racial e programas de conscientização para docentes e estudantes.

"A UFPel precisa sair da inércia e assumir um compromisso real com a luta antirracista, promovendo formações e implementando mecanismos de denúncia eficazes", afirmou Porciúncula.

Além disso, propõe-se a inclusão de diretrizes claras sobre punições para casos de racismo no regimento acadêmico, garantindo que esse tipo de crime não fique impune dentro da instituição.

Desafios e caminhos para o futuro

Para mudar essa realidade, os entrevistados apontam a necessidade de implementar políticas de combate ao racismo mais rigorosas e permanentes na UFPel. Entre as principais demandas estão:

  • Revisão do regimento interno para incluir protocolos claros para denúncias e sanções em casos de racismo
  • Criação de um núcleo de apoio a vítimas de discriminação racial
  • Ampliação da política de cotas para servidores e docentes
  • Maior representatividade negra em cargos de gestão e decisão dentro da universidade


Segundo os entrevistados, é fundamental que a UFPel desenvolva mecanismos que garantam um ambiente acadêmico mais inclusivo. Isso inclui desde treinamentos obrigatórios sobre diversidade e antirracismo para docentes e técnicos administrativos até campanhas de conscientização voltadas aos estudantes. O enfrentamento ao racismo precisa ser contínuo e institucionalizado, garantindo que a universidade evolua de forma concreta na promoção da equidade racial. "Não é só uma questão de acesso, mas também de permanência e proteção dentro da universidade", ressaltou Porciúncula.

Serviço

Ato público contra o racismo na UFPel

Data: Quinta-feira (20/02)

Horários: 11h no RU do Anglo e 17h no Largo do Bola (ICH)

Os coletivos e o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra estão disponíveis para acolher denúncias e prestar suporte a vítimas de racismo. O contato pode ser feito pelas redes sociais da UFPreta e do Conselho Negro de Pelotas.

*Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.

Imagem: Ridley Madrid


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