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DeepSeek: A nova IA chinesa que abalou o mercado global de inteligência artificial
Nesta sexta-feira (31), o programa Contraponto recebeu o professor Paulo Ferreira, docente do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), para discutir o lançamento da ferramenta de inteligência artificial chinesa DeepSeek. A nova plataforma, que surgiu como uma forte concorrente do ChatGPT, tem gerado debates sobre seus impactos tecnológicos, econômicos e geopolíticos.
O que é o DeepSeek e por que ele é uma ameaça ao ChatGPT?
O DeepSeek chamou a atenção por ser uma plataforma de código aberto, o que permite que usuários e desenvolvedores acessem, modifiquem e utilizem seu código livremente. Diferente do ChatGPT, desenvolvido pela OpenAI, que é uma ferramenta proprietária e cobra pelo seu uso, o DeepSeek oferece uma alternativa mais acessível e flexível.
Segundo o professor Paulo Ferreira, essa abertura é um diferencial importante, especialmente para a academia e a indústria. "Quando temos acesso ao código, podemos replicar, fazer engenharia reversa e avançar em pesquisas e desenvolvimentos próprios", explicou.
Impactos econômicos e geopolíticos
O lançamento do DeepSeek causou um terremoto no mercado de tecnologia, derrubando as ações de grandes players do setor. Empresas como Nvidia, Microsoft e Alphabet (controladora do Google) registraram quedas acentuadas em suas ações. A Nvidia, por exemplo, viu seu valor de mercado diminuir em aproximadamente US$ 589 bilhões, representando uma queda de 17% em suas ações. A Alphabet sofreu uma redução de cerca de US$ 100 bilhões em seu valor de mercado, enquanto a Microsoft perdeu aproximadamente US$ 7 bilhões.
A eficiência do modelo da DeepSeek, que alcança resultados comparáveis aos de concorrentes ocidentais com custos significativamente menores, levantou preocupações sobre a viabilidade dos altos investimentos em infraestrutura de IA por parte dessas grandes empresas.
Ferreira destacou que o custo de treinamento do DeepSeek foi significativamente menor (cerca de 6 milhões de dólares) em comparação com os 100 milhões gastos no ChatGPT. "Isso mostra que é possível obter resultados de alta qualidade com menos recursos, o que pode democratizar o acesso a essas tecnologias", afirmou.
Além disso, a ascensão do DeepSeek reforça a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos. "A China está mostrando que não está restrita aos americanos no desenvolvimento de modelos de IA. Isso tensiona a geopolítica global, especialmente em um momento em que a polarização entre os dois países está aumentando", comentou o professor.
Vantagens do código aberto e desafios para o Brasil
A natureza open source do DeepSeek é uma grande vantagem para países como o Brasil, onde os custos de treinamento de modelos de IA são proibitivos. Ferreira explicou que, com acesso a modelos já treinados, pesquisadores e desenvolvedores podem avançar sem precisar investir quantias astronômicas.
No entanto, ele alertou para os desafios locais. "O custo de treinamento ainda é alto para nós. Mesmo US$ 6 milhões é uma quantia significativa para o contexto brasileiro", disse.
Preocupações éticas e de segurança
A entrevista também abordou questões éticas e de segurança relacionadas ao uso de IAs como o DeepSeek e o ChatGPT. Ferreira destacou que essas ferramentas são "curadas" por humanos para evitar respostas inadequadas ou prejudiciais, mas isso também pode incluir vieses políticos.
"O ChatGPT não fala mal da OpenAI, e o DeepSeek não criticará o governo chinês. Essas restrições são programadas e refletem os interesses de quem desenvolve a tecnologia", explicou. Ele também mencionou o risco de vazamento de informações sensíveis, como artigos científicos ou dados de pesquisa, quando submetidos a essas plataformas.
Desempenho e aplicações práticas
O DeepSeek se destaca em áreas como matemática e programação de computadores, superando o ChatGPT em alguns aspectos. "Ele tem um desempenho superior em tarefas que exigem raciocínio lógico e desenvolvimento de código, o que é um diferencial importante para o mercado", afirmou Ferreira. Essa capacidade faz com que a ferramenta seja especialmente útil para desenvolvedores e profissionais de TI, que podem utilizá-la para otimizar a criação de softwares e resolver problemas complexos de forma mais eficiente. Além disso, o DeepSeek também se mostrou eficaz em tarefas que envolvem análise de dados e modelagem matemática, áreas que demandam precisão e velocidade.
Outro ponto forte é sua aplicação em pesquisa acadêmica. Ferreira destacou que a ferramenta tem sido usada por alunos e pesquisadores para auxiliar na revisão de artigos científicos, correção de textos e até mesmo na geração de hipóteses para estudos. "Ele é particularmente útil para quem não é falante nativo de inglês, pois consegue aprimorar a qualidade dos textos de forma impressionante", explicou.
Com essas aplicações práticas, o DeepSeek está se consolidando como uma alternativa viável e competitiva no mercado de IA, especialmente em nichos onde a precisão e a eficiência são críticas.
Perspectivas futuras
O professor acredita que a disputa entre China e Estados Unidos no campo da IA tende a se intensificar, especialmente com a polarização política global. "A China está oferecendo alternativas viáveis e acessíveis, o que pode levar a uma migração de usuários e desenvolvedores para suas plataformas", disse.
Ele também destacou que o sucesso do DeepSeek pode inspirar outros países, incluindo o Brasil, a investir em seus próprios modelos de IA. "Já temos iniciativas nacionais em desenvolvimento, e o exemplo chinês mostra que é possível competir nesse mercado", concluiu.
O lançamento do DeepSeek não apenas abalou o mercado de inteligência artificial, mas também redefiniu as regras do jogo na corrida tecnológica global. Com custos reduzidos, código aberto e desempenho competitivo, a plataforma chinesa está desafiando a hegemonia das big techs americanas e abrindo novas possibilidades para o desenvolvimento de IA em todo o mundo.
*Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.
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