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Edição da Manhã: afastamento do trabalho por doenças mentais
A psicóloga Emanuele Proença, integrante do Conselho Estadual de Saúde, foi a entrevistada do programa Edição da Manhã desta quinta-feira (13). Durante a conversa, ela comentou os dados recentes divulgados pelo Ministério da Previdência, que apontam um número expressivo de afastamentos do trabalho por problemas de saúde mental no Rio Grande do Sul. Em 2024, o estado já registrou cerca de 37 mil afastamentos — sendo depressão e ansiedade as principais causas.
Cenário preocupante, mas não surpreendente
Segundo Emanuele, os números alarmantes revelam uma realidade que os profissionais da saúde já previam. "Essa realidade nos preocupa, mas não nos surpreende", afirmou. A psicóloga atribui os altos índices a uma combinação de fatores sociais, econômicos e culturais que já favoreciam o adoecimento psíquico antes mesmo da pandemia.
Ela destacou que a crise sanitária agravou um quadro que já era frágil, e lembrou ainda das enchentes que afetaram o Rio Grande do Sul recentemente. "São condições acumulativas: pandemia, desastres ambientais, precarização das relações de trabalho, entre outros", explicou.
O papel do mundo do trabalho no adoecimento
Emanuele ressaltou que o ambiente de trabalho tem deixado de ser um espaço promotor de saúde para se tornar um fator de adoecimento. Ela citou a reforma trabalhista de 2017 como um dos marcos que ampliaram a vulnerabilidade dos trabalhadores.
"As pessoas têm medo de perder o emprego, trabalham sobrecarregadas, sem autonomia ou reconhecimento. Isso gera um ambiente que favorece o sofrimento mental", afirmou. Ela também destacou categorias como bancários, professores, profissionais da saúde e do telemarketing como as mais afetadas, em razão de metas excessivas, pressão constante e desvalorização profissional.
Falta de estrutura no SUS e necessidade de políticas públicas
Um dos pontos centrais da análise da entrevistada foi a falta de acesso a serviços de saúde mental no SUS. Segundo Emanuele, apesar do reconhecimento dos impactos da pandemia e das enchentes por parte de gestores públicos, isso não se traduziu em ações concretas para ampliar o cuidado.
"A maioria dos casos, como depressão e ansiedade, pode ser atendida na atenção primária, mas falta estrutura, qualidade e continuidade nos atendimentos", pontuou. Ela criticou ainda a terceirização e a rotatividade de profissionais, que comprometem o vínculo com os usuários e a efetividade do cuidado.
Conferências de Saúde do Trabalhador em andamento
Durante a entrevista, Emanuele destacou que 2025 é um ano importante para o debate sobre saúde mental no trabalho. Estão em andamento as conferências municipais de saúde do trabalhador e da trabalhadora, que terão a saúde mental como um dos temas centrais.
O Conselho Estadual de Saúde, segundo ela, tem incentivado a mobilização dos municípios para a realização dessas etapas locais. “É uma oportunidade para aprofundar a discussão e construir políticas mais eficazes”, afirmou.
Nova norma exige responsabilidade das empresas
A psicóloga também comentou a nova norma regulamentadora número 1, que, a partir de maio, exigirá que as empresas assumam responsabilidades sobre a saúde mental dos trabalhadores. No entanto, ela ponderou: “É importante, mas ainda precisamos ver como isso será colocado em prática, se realmente terá efeito concreto”.
Mulheres são as mais afetadas
Emanuele destacou ainda um recorte de gênero nos dados: as mulheres estão entre as que mais se afastam do trabalho por motivos relacionados à saúde mental. "Além da sobrecarga no trabalho formal, elas também carregam o peso do cuidado com a família, o que agrava ainda mais o sofrimento", observou.
Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.
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