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“Pelotas ainda apaga sua negritude”: Francisca Jesus fala sobre racismo, cultura e políticas públicas
A criança pergunta, curiosa: “Ela pode dar palestra?” O espanto não é pela presença de uma mulher no palco, mas pela cor da pele de quem fala. A resposta da mãe vem com rapidez: “Sim, ela entende muito do assunto, por isso está nos ensinando”. O episódio, presenciado pela historiadora Francisca Jesus, ilustra como o racismo está entranhado nas percepções mais básicas — e como as famílias têm papel central na transformação desse cenário.
A reflexão foi uma das muitas que Francisca compartilhou no programa Contraponto, na manhã de segunda-feira, 24 de março. Historiadora, mestra e doutoranda em História pela UFPel, especialista em Direitos Humanos, presidenta do Conselho Municipal de Cultura de Pelotas (Concult) e integrante do movimento UFPreta, Francisca atua na intersecção entre educação, cultura e direitos humanos. Sua trajetória combina ativismo no movimento negro e resistência dentro da universidade, denunciando as formas de apagamento da intelectualidade negra e defendendo políticas de reparação.
Educação antirracista começa na infância e envolve toda a comunidade escolar
Francisca destacou que o enfrentamento ao racismo precisa começar pelas escolas, mas não se restringe a elas. A formação antirracista envolve toda a comunidade escolar — professores, merendeiras, funcionários da limpeza, direção. “Se a gente não colocar esse debate dentro das escolas desde cedo, será muito mais difícil formar uma nova geração comprometida com o combate ao racismo”, afirmou.
A historiadora abordou também o conceito de letramento racial, ressaltando sua importância para que crianças e adolescentes compreendam o racismo em suas múltiplas formas, inclusive as mais sutis. “Quantas crianças se autodeclaram negras? Hoje, um pouco mais. Mas, por muito tempo, eram pouquíssimas. Porque era doloroso se perceber negro nesta sociedade.”
Ela defendeu que esse processo de conscientização precisa começar dentro de casa, com as famílias ensinando respeito, limites e empatia. “As crianças entendem muito bem o que é ferir o outro. Elas só precisam ser ensinadas de forma correta, com diálogo e exemplo.”
Cultura como espaço de pertencimento e afirmação
Ao falar sobre o papel da cultura, Francisca foi categórica: “A cultura não é só entretenimento. Ela é saúde mental, é pertencimento, é construção de identidade”. Como presidenta do Concult, ela celebrou os avanços em políticas públicas voltadas à cultura popular e negra, destacando a importância de editais como o Cultura Viva e o Periferia Viva.
Essas ações têm levado espetáculos e oficinas culturais para bairros como Dunas, Passo dos Negros e Pestano, promovendo o acesso à cultura nas comunidades que mais precisam. “É fundamental que a população se veja representada nos palcos, nas artes, nos materiais de divulgação. Quando uma criança negra vê uma personagem como ela em posição de destaque, isso transforma sua autoestima”, afirmou.
A presidenta do Concult também criticou a visão elitista da cultura ainda predominante na região Sul. Para ela, é urgente reconhecer os fazedores de cultura popular como protagonistas e agentes transformadores. “Tudo o que a gente toca tem a mão da cultura negra e indígena. Isso precisa ser valorizado.”
Universidade como espaço de enfrentamento e resistência
Francisca também falou sobre sua vivência na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), onde integra o movimento UFPreta — uma articulação coletiva de estudantes, professores e pesquisadores negros vinculados à universidade. O grupo atua como espaço de resistência, fortalecendo o protagonismo negro no meio acadêmico e promovendo uma ciência construída a partir de epistemologias negras, em oposição ao modelo eurocentrado que ainda predomina nas universidades brasileiras.
Ela destacou que o acesso da população negra e indígena ao ensino superior é resultado de lutas históricas, especialmente por meio das cotas e das políticas de permanência. No entanto, a permanência ainda é marcada por desafios. “Quantos colegas ouviram que o ambiente acadêmico não era para eles? Isso não pode ser normalizado. Quando uma pessoa negra desiste da universidade, é preciso investigar as causas”, afirmou.
Durante a conversa, a pesquisadora também denunciou violências simbólicas que persistem nos espaços universitários — desde cerimônias de formatura que desrespeitam símbolos da religiosidade de matriz africana, até a invisibilização de estudantes e pesquisadores negros em espaços de destaque. Segundo ela, é preciso que a universidade se comprometa de forma efetiva com práticas antirracistas e promova um ambiente de acolhimento, respeito e equidade.
Racismo estrutural e a responsabilidade das pessoas brancas
Durante a entrevista, Francisca também explicou como identificar sinais de letramento racial no comportamento de pessoas brancas. “Quando alguém percebe que só há pessoas brancas em um painel de debate, mesmo com profissionais negros igualmente qualificados, isso já é um sinal de consciência”, afirmou.
Ela destacou que combater o racismo exige que as pessoas brancas reconheçam seus privilégios e se posicionem de forma ativa. “Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. E isso passa por ações concretas, como dar espaço, ouvir, contratar, incluir.”
Sobre o discurso comum de que “pessoas mais velhas não mudam”, Francisca foi direta: “Velhice não é desculpa para o racismo. Racismo é crime. Assim como ninguém sai cometendo crimes por aí, as pessoas precisam entender que precisam se adequar às regras sociais.”
Políticas públicas para além do combate
Encerrando a entrevista, a pesquisadora comentou sobre os dois sentidos das políticas públicas no enfrentamento ao racismo: o de combate direto à discriminação — ainda extremamente necessário — e o de fortalecimento das identidades negras por meio da cultura, da educação e da valorização dos territórios. Sem desconsiderar a importância das denúncias, é preciso também abrir espaço para iniciativas que estimulem a criação de novas formas de viver a negritude, ampliando horizontes e consolidando processos de afirmação e pertencimento.
Francisca reforçou o papel do Concult em tornar visível a produção cultural da população negra em Pelotas, atuando na valorização de artistas, coletivos e comunidades tradicionais. “É uma forma alegre, combativa e positiva de colocar o povo negro e indígena em destaque. A cultura é uma ponte para todas as áreas: saúde, educação, cidadania.”
*Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.
1 comentário
Agradeço muito a oportunidade ✊????
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