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Pesquisa aponta insegurança e silenciamento como realidade de artistas no Brasil
Um levantamento realizado entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025 revelou um panorama preocupante sobre a liberdade artística no Brasil. A pesquisa, conduzida pelo Observatório de Censura à Arte em parceria com o Nonada – Jornalismo Travessia, ouviu trabalhadores da cultura de diferentes regiões do país e destacou a recorrência de censura, assédio e violência simbólica ou institucional contra artistas.
Diversidade no perfil dos participantes
Foram entrevistadas 52 pessoas, com diversidade de gênero e raça: 34,6% se identificaram como homens cis, 34,6% como mulheres cis, 11,5% como pessoas não-binárias, 3,8% como homens trans e 15,5% escolheram outras identificações. Em relação à cor, 75% se declararam brancas, 13,5% pardas, 5,8% negras e 5,7% optaram por “outras”.
Violências frequentes no exercício da arte
A pesquisa revelou que 44,2% dos participantes já sofreram diretamente algum tipo de violência, como censura, assédio ou intimidação. Outros 13,5% conhecem alguém que passou por isso, e 42,3% afirmaram ter vivenciado situações de cerceamento e também conhecer outras pessoas na mesma condição.
Os tipos de ataques mais citados foram censura e assédio moral (40 casos cada), seguidos por discurso de ódio (35), ameaça ou coerção (32), desinformação (30), entraves financeiros ou burocráticos (29), agressão física (8), assédio sexual (7) e processos judiciais (5).
Quem censura a arte no Brasil?
Os principais agentes apontados como responsáveis pelas violências foram o Poder Executivo (prefeituras, governos e secretarias), com 44,2% das menções. Empresas privadas aparecem em seguida (34,6%), assim como gestores culturais (28,8%). O Poder Legislativo (15,4%), forças policiais (5,8%) e o Poder Judiciário (1,9%) também foram citados. Em 38,5% dos casos, os participantes disseram não saber quem foi o autor do ataque.
Medo e autocensura entre artistas
Um dado alarmante mostra que 69,2% das pessoas entrevistadas já modificaram projetos culturais ou obras por medo de sofrer algum tipo de retaliação. Apenas 30,8% disseram nunca ter feito alterações por esse motivo.
Quando questionados sobre o grau de liberdade artística percebido no Brasil, em uma escala de 0 (nenhuma liberdade) a 5 (liberdade total), 23 pessoas atribuíram notas entre 0 e 1; 24 ficaram no nível intermediário e apenas 5 escolheram notas mais altas.
Entraves à liberdade de criação
Os fatores mais apontados como obstáculos à plena liberdade artística foram a desinformação e os ataques à cultura (75%), a ideologia política (75%) e o machismo e misoginia (71,2%). Racismo (53,8%), LGBTQIA+fobia (48,1%) e burocracia excessiva (48,1%) também foram citados como barreiras relevantes.
Outros fatores mencionados pontualmente incluíram religião, inconstitucionalidade, moralismo sexual e a lógica capitalista.
Expectativas para o futuro
Questionados sobre a evolução da liberdade artística nos últimos cinco anos, 32,7% disseram que o cenário permanece o mesmo, 28,8% afirmaram que piorou e 21,2% perceberam melhora. Para os próximos cinco anos, 40,4% projetam um cenário pior, 36,5% esperam melhora e 23,1% acreditam que a situação seguirá como está.
Um panorama alarmante
Os dados reforçam a percepção de que a liberdade artística no Brasil ainda enfrenta desafios significativos. A pesquisa aponta não apenas para casos diretos de censura, mas também para o clima de medo e insegurança que leva à autocensura, especialmente entre artistas que abordam questões identitárias, de gênero, sexualidade e críticas a estruturas de poder.
Discussões e relatos qualitativos citados no relatório indicam que os impactos dessas violências se estendem para além do campo profissional, atingindo subjetividades e a própria continuidade das trajetórias artísticas.
Serviço
Publicação: Relatório “Percepções sobre a liberdade artística no Brasil”
Data de lançamento: 20 de março de 2025
Realização: Observatório de Censura à Arte e MOBILE
Financiamento: Funarte e Ministério da Cultura – Programa Retomada Cultural RS
Destaques: Dados sobre censura, violência cultural e insegurança de artistas no Brasil
*Com informações do Nonada Jornalismo
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