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Projeto ColetivAção conecta saberes populares e universidade

Projeto ColetivAção conecta saberes populares e universidade

Com uma proposta que une universidade e movimentos sociais, o projeto ColetivAção tem fortalecido redes colaborativas e ampliado a visibilidade dos saberes populares em Pelotas. Na nova edição do seminário, lideranças comunitárias e docentes se reúnem para aprofundar laços e propor ações conjuntas em prol de direitos e justiça social.

No programa Contraponto, da RádioCom, a professora Karinne Goettems dos Santos, docente da Faculdade de Direito da UFPel e integrante do projeto ColetivAção, detalhou os objetivos da iniciativa e os resultados já alcançados. O segundo seminário ocorre neste sábado, 29 de março, no Museu do Doce, com entrada gratuita e voltado à participação dos coletivos da cidade.

Reconhecer para transformar: a essência do ColetivAção

A proposta do ColetivAção nasce da articulação entre a Universidade Federal de Pelotas e diversos coletivos da cidade, com base em uma experiência anterior realizada em Porto Alegre. Em Pelotas, a iniciativa é coordenada por docentes e extensionistas, como a professora Karinne Goettems dos Santos, e tem como foco o mapeamento e a escuta de organizações que atuam nas periferias da cidade com pautas sociais, culturais e políticas.

De acordo com Karinne, o objetivo principal é reconhecer e fortalecer esses movimentos sociais, muitas vezes invisibilizados. “Esses coletivos têm uma organização democrática, participativa, contra-hegemônica e plural, que precisa ser escutada pela universidade”, afirmou. A partir desse reconhecimento, o projeto busca aproximar a academia das demandas reais dos territórios.

Primeira edição reuniu mais de 30 coletivos

A primeira edição do seminário ColetivAção ocorreu em outubro de 2024 e contou com a participação de mais de 30 coletivos convidados. O evento foi fundamental para mapear lideranças e compreender suas principais necessidades, estabelecendo uma conexão direta com a universidade e abrindo espaço para ações conjuntas.

Segundo Karinne, os resultados foram significativos. “Foi uma oportunidade para construir confiança e criar uma agenda comum. Queremos uma aproximação fina com esses coletivos”, disse. A partir dessa escuta, surgiram propostas concretas e estruturantes, como a criação de um observatório digital para apoiar o intercâmbio entre os próprios coletivos e com a universidade.

Observatório digital: um espaço de conexão e visibilidade

Uma das principais novidades surgidas a partir do primeiro seminário é a construção de um observatório digital dos coletivos de Pelotas. A ideia é criar uma plataforma online que reúna informações sobre as organizações participantes, com foco em suas áreas de atuação, contatos, lideranças e formas de articulação. Segundo Karinne, será uma ferramenta essencial para facilitar parcerias e fortalecer a atuação dos grupos.

“Esse espaço virtual vai permitir que os próprios coletivos se enxerguem, se conectem e identifiquem quem está atuando em cada frente. Será uma base concreta para ações conjuntas e futuras colaborações com a universidade”, explicou. O observatório também reforça o compromisso do projeto com a continuidade e a sistematização dos aprendizados construídos coletivamente.

Liderança negra e feminina: protagonismo que move os coletivos pelotenses

Outro dado impactante revelado por Karinne é que cerca de 98% das lideranças dos coletivos participantes são mulheres negras e voluntárias. “Isso diz muito sobre a realidade brasileira, e particularmente sobre a simbologia social de Pelotas. Essas mulheres são a base das ações comunitárias e, ainda assim, enfrentam inúmeras dificuldades estruturais”, destacou.

Esse protagonismo feminino tem influenciado diretamente as diretrizes do projeto. Uma das ações em desenvolvimento, por exemplo, é a criação de uma clínica jurídica multidisciplinar voltada ao atendimento de mulheres vítimas de violência racial e de gênero. A articulação com a Secretaria da Mulher do município vem sendo fundamental para tornar essa proposta viável, respondendo a uma demanda urgente das lideranças presentes no seminário.

Resultados concretos e novas articulações

Além da clínica jurídica e do observatório digital, o ColetivAção já atua em apoio a casos específicos como o da ONG Cuidando de Nós, localizada na comunidade Passo dos Negros. A organização enfrenta obstáculos relacionados à regularização fundiária e à obtenção de CNPJ, o que limita sua capacidade de acessar recursos por meio de editais públicos.

O projeto tem oferecido suporte jurídico e institucional à ONG, em articulação com docentes da área de Direito e Sociologia. Essa atuação direta é um exemplo da aplicação prática dos vínculos criados entre universidade e território. “Nosso compromisso é transformar escuta em ação concreta”, ressaltou Karinne.

Formação cidadã para dentro e fora da universidade

Além do impacto nas comunidades, o projeto também transforma o ambiente acadêmico. Para a professora Karinne, a extensão modifica a sala de aula e amplia o repertório dos estudantes. “Os alunos passam a ter contato direto com a realidade social para a qual vão atuar como profissionais no futuro”, afirmou.

A docente orienta, inclusive, uma pesquisa em andamento que avalia como as atividades extensionistas impactam a formação acadêmica e profissional dos estudantes da UFPel. “As respostas têm sido emocionantes. O contato com os coletivos modifica a percepção dos alunos sobre seu papel na sociedade”, contou.

O seminário como ponto de encontro e construção

O segundo seminário, que acontece neste sábado, busca não apenas fortalecer os vínculos com os coletivos já mapeados, mas também envolver mais docentes da UFPel nas ações extensionistas. “Nosso objetivo é trazer mais colegas para conhecer de perto esses coletivos e planejar ações com base nas suas demandas”, explicou Karinne.

Essa edição será marcada por devolutivas do primeiro encontro, apresentação de propostas conjuntas e a continuidade do diálogo entre universidade e território. A professora também reforçou que o projeto está aberto a novas adesões: “Todo coletivo interessado será bem-vindo. Queremos ampliar essa grande aliança”.

Um dos eixos centrais do projeto é reconhecer e valorizar os saberes produzidos nos territórios periféricos. Segundo Karinne, esse reconhecimento se dá tanto por meio da escuta ativa quanto pela inclusão dessas vozes nos espaços institucionais da universidade. Nas palavras da professora: “Dar espaço para os coletivos falarem é dizer: o que vocês fazem é relevante e será considerado nas nossas ações”. Ela reforça que muitos dos coletivos atuam com arte, cultura, enfrentamento ao racismo, à violência de gênero e à exclusão social.

Serviço

Evento: 2º Seminário ColetivAção – Encontros entre os Coletivos de Pelotas e a UFPel

Data: Sábado, 29 de março de 2025

Horário: Das 9h às 12h

Local: Museu do Doce – Praça Coronel Pedro Osório, nº 8

Entrada: Gratuita

Informações: +55 53 9112-6105 (WhatsApp do programa Acesso à Justiça na Rua)

*Confira a entrevista completa no nosso canal no YouTube.


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